sábado, 26 de novembro de 2011

ki aikido abiraxis

Lesões Sérias e o Aikido
Traduzido por Dr. Alberto Coimbra - Instituto Takemussu Rio


[Nota do Editor: Este artigo foi originalmente publicado no Aiki News em 1989. Em viagem recente ao Japão, eu tive a oportunidade de encontrar novamente o Professor Shishida. O assunto das lesões e morte em Aikido novamente surgiu em nossa conversa e eu fiquei assustado ao saber que o tipo de incidente descrito nesse artigo continuava em voga nos anos subsequentes, resultando em mais mortes relacionadas ao Aikido. Em um caso extremo, o Professor Shishida relatou que duas mortes ocorreram na mesma universidade, em um lapso de tempo relativamente curto. Ele também mencionou que a despeito do fato de os pais das vítimas terem processado as universidades em várias ocasiões, as cortes tem repetidamente concluído por serem as escolas inocentes. Eu acho essa situação intolerável, e encorajo os leitores a posicionar seus comentários no boletim do Aikido Journal com vistas a expor essa situação horrível, na esperança que mesmo uma simples vida seja salva!]

Esta seção da tese completa foi impressa no Nihon Budo Gakkai Gakujutsushi. (Jornal Científico de estudos das artes marciais japonesas) e foi publicada no Volume 21, No. 1, 1988. A bibliografia foi abolida.

Tabela: Resumo das mortes e lesões severas em Aikido abaixo:

CAPÍTULO DOIS - CASOS DE ACIDENTES SÉRIOS RESULTANTES EM MORTE E LESÃO SEVERA
Os casos contidos nos documentos do Capítulo I e outros materiais e testemunhos oferecidos pelos indivíduos em questão tais como alunos que responderam às minhas solicitações por dados, estão listados na tabela inclusa. Eu escolhi reproduzir todas as informações nos casos em que os dados eram limitados, e tentei selecionar informações pelo seu valor instrutivo nos casos em que as limitações de espaço me levaram a omitir detalhes, onde os dados eram amplos. Eu omiti os nomes das vítimas e universidades em consideração às pessoas envolvidas. Eu atribuí números aos casos de acordo com as datas de ocorrência do acidente.

III. PROPOSTAS DE MEDIDAS PARA A PREVENÇÃO DE ACIDENTES SÉRIOS

(1) Reconhecimento do perigo - características inerentes ao método de prática por Kata
     No Aikido em geral, é adotado um método de treinamento onde o uke ( a pessoa levando a queda) e tori (a pessoa que arremessa) praticam uma técnica pré-determinada. Este método de kata foi também adotado pela Associação de Aikido do Japão, que emprega o método de randori em competição. O método parece ser mais seguro que o método de randori usado no judo, desde que ele requer menos contato físico mesmo que métodos de prática por kata difiram levemente, dependendo da escola. E o caso do Aikido?
     Primeiro, eu gostaria de mencionar o fato de que exceto os casos dos acidentes sérios da tabela do Capítulo 2, todos, exceto o 3 e o 4, ocorreram em clubes esportivos afiliados a escolas de Aikido que não praticam o método do randori competitivo. As escolas envolvidas nos casos 3 e 4 não são conhecidas por causa da escassez de documentação. Este escritor, que tem experiência tanto nas associações de métodos de randori e kata, considerava o método do randori muito mais perigoso que o método de kata. Daí eu ter ficado extremamente surpreso pela natureza dos acidentes citados.
     Por que a maioria das vítimas são fisicamente fracas, tais como os calouros das universidades ou estudantes do sexo feminino? Por que os estudantes mais experientes ou os líderes não foram capazes de prevenir os acidentes? Naturalmente, deve-se procurar as razões nas descrições dos acidentes. Contudo, eu creio que haja uma causa comum em todos os 11 casos. Portanto, eu quero ressaltar o perigo inerente ao método de prática por kata, que é uma conclusão à qual eu cheguei como resultado do exame dos casos.
     O ponto é que a segurança do uke é colocada nas mãos do tori. No kata, o uke e o tori são decididos de antemão, e o tori pode decidir a intensidade e algumas vezes o tipo de técnica de acordo com seu propósito. Por outro lado, não somente é limitada a primeira ação do uke, mas é também tacitamente assumido que ele não oferecerá qualquer resistência à técnica. Desta forma, ambos podem desempenhar seus papéis. Neste sentido, pode ser dito que o método de kata é mais seguro que o treino de randori, onde alguém pode ser arremessado com uma técnica inesperada.
Contudo, mesmo na prática de kata deve ser reconhecido que os acidentes sérios podem ocorrer, a) se o uke é inexperiente; e b) se o uke está muito cansado, e mesmo mais importante, c) como um resultado da intensidade da aplicação da técnica de tori, além das categorias a) e b). Nos 11 casos citados, as vítimas são todas uke e, exceto por vários secundaristas, são calouros e portanto se enquadram na categoria a). No que concerne à categoria b), exceto pelos casos 4, 8 e 9, os acidentes ocorreram durante seminários. Isto é, a fadiga em condições não usuais, pode resultar em acidentes. O caso da categoria c) não está claro. Contudo, se nós assumirmos a princípio que acidentes nunca acontecem para as categorias a) e b) sozinhas, sem a categoria c), nós podemos controlar o comportamento apropriado de tori, dados a) e b), isto é, atenção à segurança e ao método das técnicas de prática.
     Deve-se assumir uma pesada responsabilidade moral se se coloca o uke em uma situação na qual não se permite que ele resista em prática de kata que resulte em acidente. O tori deve praticar tendo em mente os perigos inerentes à prática por kata e proceder cuidadosamente. Além disso, eu acho que os líderes do Aikido deveriam reexaminar a prática presente e os métodos de ensino de maneira a fazer desta abordagem um costume. Em seguida, vou apresentar medidas específicas e opiniões médicas de peritos baseadas nos acidentes descritos nos casos acima.

(2) Medidas contra shihonage e iriminage e opinião de especialista
     Como pode ser visto nos casos acima, shihonage e iriminage despontam como as técnicas causadores de acidentes. Em ambas as técnicas, é fácil bater a parte de trás da cabeça com o perigo inerente de hemorragia craniana. Vamos primeiro considerar o caso do shihonage. Nesta técnica, o tori segura uma mão do uke e girando seu corpo, faz com que uke caia para trás. Se o tori faz isso continuamente, torna-se mais fácil para o uke bater a parte de trás da cabeça dependendo da velocidade, força e ponto de liberação da mão segura. Eu sei disso por experiência pessoal.
     O seguinte parece ser o caso. Desde que o tempo entre a liberação e o impacto seja muito curto, os músculos do pescoço que deveriam suportar a cabeça por ocasião do impacto não são utilizados ou, ainda que sejam utilizados, eles não trabalham o suficiente para suportar a cabeça que cai. Portanto, quando praticar essa técnica, é importante que o pulso de uke seja liberado antes que o ângulo de queda se torne muito grande. É claro, fatores como a habilidade em cair de uke e sua altura auxiliam. Também, é eficaz pausar o movimento da técnica por um momento antes de liberar o pulso. Desde que uke seja colocado em uma posição mais próxima daquela requerida pela queda através dessas medidas, a prática se torna mais segura.
     Em seguida, vamos tocar no assunto das contramedidas para a técnica do iriminage. Nesta técnica, permite-se a uke bater com o lado da mão ou agarrar o punho. O uke é então puxado para baixo sendo conduzido em um movimento de arco. Ele é finalmente jogado para trás usando a força da batida com o lado da mão ou o movimento do corpo. O ponto no movimento da puxada para baixo de uke até o arremesso para trás é similar ao osotogari do judo. As principais diferenças são que em Aikido não se engancha a perna, mas se usa a força do tegatana (a lâmina da mão) sem segurar o uniforme de treinamento do oponente, como em judo. Não é preciso dizer que é muito perigoso executar essa técnica com força. Contudo, é necessário prestar atenção mesmo sob condições de prática leve. Como visto no caso 11, mesmo contínuos impactos leves podem causar acidentes. Ainda que a situação varie na dependência da habilidade de uke, é esperado de tori que faça concessões, por exemplo, quando executar o movimento de entrada do braço com o tegatana para levar o oponente para baixo.
     Além disso, um ponto para se ter em mente para ambas as técnicas é que é difícil discernir o momento quando o oponente bate com a cabeça. Falando de maneira geral, os praticantes avançados já experimentaram leves impactos no passado de maneira a que eles tendam a achar que estes impactos não causarão qualquer problema e continuem a arremessar seus parceiros mesmo que eles saibam que o uke está batendo com a cabeça. Este é um ponto crítico. Desde que é possível que o tori possa não entender as limitações do uke, é necessário criar o hábito dos observadores avaliarem a prática. Os casos 2, 9 e 11 sugerem a necessidade de tomar essa precaução.
Finalmente, com respeito ao hematoma subdural agudo, que é o nome da desordem em muitos dos acidentes, eu gostaria de resumir o estudo do Sr. Takashi Suzuki que escreveu um artigo publicado na Clinical Sports Medicine no qual eu observei o seguinte:
     Há dois tipos de hematoma subdural, a) aqueles causados por contusões cerebrais, e b) aqueles sem contusão cerebral. a) inclui "casos nos quais a artéria e a veia do córtex cerebral sejam lesadas por contusão cerebral causando um hematoma entre a dura mater e a superfície do cérebro, isto é, abaixo da dura. Esta lesão acontece quando a energia cinética envolvida é grande como no caso de uma queda, colisão ou soco. Além do mais, como eu mencionei acima, há dois tipos de contusão cerebral, uma que ocorre na área imediata ao impacto, e outra que ocorre no lado oposto, como uma ação contrária. b) parece ocorrer por causa de uma ruptura da veia que corre da superfície do cérebro para a dura ou a veia que a ela se conecta. Isto é, o "fosso" entre o crânio e o cérebro causado pelo choque sangra, resultando em um hematoma. Usualmente isso ocorre devido a um choque envolvendo uma pequena quantidade de energia cinética isto é, alguém bate com a parte posterior da cabeça durante a queda a partir da posição de pé. A característica desta lesão é que ela é mais freqüentemente vista onde uma superfície macia está envolvida, como um tatame ou tapete. Isto não é comumente encontrado quando a cabeça bate numa superfície dura, como no skating. Diz-se que o "fosso" do cérebro se torna de alguma maneira maior no caso de uma superfície mais macia, como o tatame. No judo, esse hematoma ocorre mais facilmente porque os praticantes caem na maioria da vezes sobre as costas e batem a parte posterior de suas cabeças.
     O ponto que eu quero deixar ligado ao Aikido é que mesmo o tatame é perigoso, ainda que se possa achá-lo mais seguro por causa da sua maciez. Deve-se ter firmemente em mente esse fato em adição ao comentário do Sr. Suzuki em uma passagem diferente. "Nos esportes onde leves pancadas no crânio podem ocorrer pela frente e por trás, nós devemos ter cuidado com o conceito errado que não há motivo para preocupação porque uma pancada é leve". O reconhecimento deste fato poderia ter prevenido os acidentes que ocorreram nos casos 1, 7 e 11. Este escritor foi avisado pelo Sr. Koyo Kawamura (Colégio Médico de Mulheres de Tóquio) quanto a esta atitude de falta de cuidado, que disse: " A distribuição das veias dentro do crânio varia de acordo com o indivíduo, e se vai haver ou não um hematoma subdural é determinado tanto pelo impacto quanto pela condição fisiopatológica do indivíduo que recebe o impacto. Portanto, grande cuidado é necessário com relação a impactos na cabeça".

(3) Treinamento preventivo
     Primeiro, eu sugiro fortemente que pessoas diretamente envolvidas na prática façam exercícios para desenvolvimento do pescoço. As razões para isso estão descritas no ensaio do Sr. Suzuki, intitulado "A prevenção das lesões da cabeça no Boxe". Ele escreve: "De maneira a minimizar o choque para o cérebro, deve-se treinar o pescoço, que suporta o crânio pesado", e " no mundo do Sumo, ainda que seja frequente a prática com obstáculos, as desordens cerebrais são raras". A razão para isso é o suficiente treinamento do pescoço. Eu creio ser mais importante treinar os músculos do pescoço de maneira que eles possam suportar o crânio rapidamente de maneira a minimizar os choques para o cérebro".
     Estas passagens foram escritas como uma descrição de medidas preventivas para pancadas e socos na cabeça. É fácil entender a utilidade do treinamento do pescoço para tornar o "fosso" entre o crânio e o cérebro menor, para proteger contra uma pancada na cabeça causada pelo impacto da mão de alguém batendo no tatame em Aikido. Portanto, eu gostaria de apresentar um exercício para o treinamento do pescoço que eu tenho usado em nossas aulas de Aikido na Universidade de Waseda desde 1985, como parte de nossos exercícios de aquecimento.
     É um exercício isométrico no qual um parceiro empurra a cabeça do outro usando a base de uma ou ambas as palmas para a frente, em oito direções: esquerda, direita, para frente, para trás e para os quatro ângulos dos cantos. Cada vez se empurra por cerca de seis segundos usando toda a força, com repetições várias vezes. Se este exercício é feito nas aulas da universidade somente uma vez por semana, ele não é especialmente eficaz. Contudo, se for introduzido como um exercício praticado na atividade diária de um clube esportivo, ele é muito eficaz. Parte do método de treinamento acima mencionado foi introduzido pelo Sr. Noboru Kubota em "Budo e treinamento muscular", que apareceu em série na revista Budo. Naturalmente, quanto menos habilidoso se for, mais evidente será que a causa de um acidente será a falta de treinamento básico. Portanto eu acredito que uma maneira eficaz para evitar acidentes seja incorporar os exercícios do pescoço a um regime de desenvolvimento de força que forme uma parte importante da aula ou treino.

(4) Significado da compilação e publicação de um relatório de descrição de acidente
     Uma das razões para esse escritor ter começado esse estudo foi uma solicitação para propor medidas preventivas por parte de uma editora, com referência aos casos 5 e 8. Subsequentemente, como eu mencionei no capítulo I, eu coletei materiais da literatura disponível, mas ele era insuficiente no que concerne ao assunto de acidentes sérios. Daí eu reuni dados relativos aos três casos ocorridos na área de Kansai, juntamente com a informação que eu tinha de ouvir dizer. Eu tentei escrever este relato baseado em minhas experiências pessoais assim como nos já mencionados dados e materiais.
     Eu gostaria de agradecer àqueles interessados que colaboraram com meu pedido, proporcionando informações. Falando francamente, algumas universidades não foram particularmente cooperativas. O seguinte incidente se relaciona a um acidente não incluído na tabela acima. Quando eu ouvi da ocorrência de um acidente sério em uma universidade envolvendo um estudante membro de um clube de Aikido em outubro de 1987, eu fui ao departamento encarregado e obtive informação verbal. Naquela época eu ouvi que havia uma fita de vídeo que continha uma reencenação do acidente, mas as autoridades se recusaram a mostra-la a mim e eu não fui capaz de examina-la.
     Durante a investigação de um caso contido na tabela eu me deparei com um modo típico dos membros de clube ou alunos lidarem com acidentes. Quando eu percebi que havia alguém que tinha uma cópia de uma revista que continha uma edição especial com respeito ao acidente, eu pedi a ele que providenciasse um, e ele gentilmente consentiu. Contudo, alguns dias mais tarde ele me disse que não poderia porque ele estava fortemente pressionado pela associação a não fazê-lo. Eu fui obrigado a encontrar os líderes da associação para requisitar uma revista e explicar que eu tencionava usá-la para fins de pesquisa. Eles, contudo, recusaram-se devido a uma forte objeção por parte dos alunos e professores. (Àquela época eles explicaram que a sobrevivência da associação estava em questão, e eles não queriam que estranhos se intrometessem). Mais tarde eu pude ver a revista através de outra fonte. O conteúdo era elogiável dado que havia uma tentativa sincera de assegurar que aquele acidente nunca mais acontecesse.
     Como resultado dessas experiências, a primeira coisa que eu senti foi que, exceto pelas famílias das vítimas, as partes envolvidas tais como clubes esportivos (incluindo alunos) e superiores incluindo as autoridades universitárias e o shihan de cada escola geralmente esperavam resolver o problema do acidente privativamente. Eu imagino as razões para essa atitude, incluindo as seguintes. Primeiro, há uma tentativa de evitar que a informação se torne pública dado que o assunto da responsabilidade pode resultar na punição das pessoas relacionadas ou do clube da universidade (descontinuação do clube, etc...). Este tipo de comportamento resulta na tragédia relatada no caso 9. Os membros do clube removeram a vítima por si mesmo sem chamar uma ambulância e foram a dois hospitais em vão, com a vítima morrendo no final. As autoridades universitárias estão preocupadas com tais problemas prejudicando a imagem social da universidade, e afetando o número de candidatos, ou iniciando problemas financeiros (especialmente no caso das universidades privadas) que podem surgir da publicação das informações pelos jornais agressivos capitalizando as tendências da mídia de massa. O mesmo é o caso da autoridades regentes de cada organização de Aikido. Na medida em que as finanças da organização são mantidas por uma taxa de registro ou de exames para os níveis mais altos paga pelos praticantes, a publicação de acidentes leva a uma diminuição do número de praticantes e pode resultar em dificuldades financeiras.
     Em esportes como o Aikido, a maioria das vítimas são indivíduos, enquanto que as partes envolvidas são grupos. A menos que aqueles envolvidos sentem-se e tentem analisar as causas e efeitos do acidente e tornem a informação pública colocando-a em um relatório, será difícil evitar que tais acidentes ocorram novamente. Eu gostaria de enfatizar fortemente o ponto acima. Acidentes podem acontecer mesmo se relatórios detalhados são compilados, como no caso de acidentes aéreos. Contudo, no atual mundo do Aikido nós temos uma situação na qual não há relatos, ou se há relatos, eles não podem ser usados por instrutores ou pesquisadores. Esta situação deveria ser corrigida imediatamente.